Introdução:
Você conhece o handebol de areia? Você sabia que o Brasil é uma das principais seleções (masculinas e femininas) nessa modalidade? Pois é, além de muitos títulos mundiais, na última edição da competição mundial, a equipe feminina saiu com um 3º lugar e a maculina com a Prata, mostrando assim que a cada ano a equipe tem conseguido se manter na elite mundial da modalidade.
O Handebol de areia é uma modalidade que, apesar de carregar o nome “handebol” possui diferenças significativas se comparada ao “handebol de quadra”.
Essas mudanças iniciam-se pelo número de jogadores em quadra. Enquanto que no handebol de quadra, temos 7 jogadores, dos quais 1 deve ser um goleiro, no handebol de areia esse número é diminuído para 4 jogadores dos quais 1 é o goleiro. A quadra também é substancialmente menor.

Figura 1. Dimensões da quadra de “Handebol de Areia” e área do holeiro em formato diferente - uma possibilidade para exploração pedagógica

Figura 2. Distribuição Clássica de Jogadores na Quadra - Goleiros não participam da contrução do ataque

Figura 3. Distribuição Clássica de Jogadores no Handebol de Areia - Verificar o goleiro participando da construção do ataque
Além desses números reduzidos, nesse jogo, finalizações com características “malabarísticas” (giro de 360°, gols de “ponte aérea” e cambalhotas no ar) e o gol de goleiro têm um valor dobrado, logo, valem 2 pontos.
[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=RuX39Od1LOA]
Vídeo 1. Lances de Ponte Aérea
[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=R6ZiMXNg1nM]
Vídeo 2. Gols com giros de 360°
[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=6kBvnDeo9mg]
Vídeo 3. Gol de Cambalhota
[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=laQVLO34UNg]
Vídeo 4. Gol de Goleiro
Outras regras diferenciadas regem essa modalidade, mas com essa descrição básica, é possível caracterizar o handebol de areia para esse artigo.
Objetivos
Esse artigo vem mostrar como a organização lógica do handebol de areia pode ser útil no processo pedagógico do handebol.
Será analisado como tais diferenças citadas anteriormente - tamanho de quadra, número de jogadores em quadra e as regras que incidem sobre os goleiros poderem fazer gols com valor dobrado - podem contribuir para enriquecer ainda mais o processo de aprendizagem do handebol de quadra.
A possibilidade de transferência de aprendizado:
Scaglia (2003), através do seu estudo dos jogos de bolas com os pés, defende a idéia de que a aprendizagem do jogo deve valorizar em seu processo a vivência de jogos que pertençam à mesma “família de jogos”. Ou seja, o processo de ensino-aprendizagem deve possibilitar ao aluno vivenciar jogos que sejam capazes de levar adaptações positivas, de ordem lógica e das ações, a outros jogos.
Sob a perspectiva das “famílias de jogos”, jogo passa a ser analisado como uma unidade complexa, cujos elementos que o constituem - os jogadores, as condições externas, as estruturas motrizes e as regras do jogo - interagem entre si simultaneamente.
A partir dessas relações, é possível observar a aprendizagem de conceitos que além de serem específicos àquele jogo, passam a ser transferidos para outros jogos, de modo a influenciar positivamente as ações do jogador neste novo jogo, desde que entre esses jogos haja semelhanças dos padrões organizacionais e lógicos, ou seja, desde que eles pertençam à mesma uma “família de jogos”.
Scaglia (2003) dá a essas capacidades aprendidas e capazes de transferência para outros jogos, o nome de “emergências”, pelo fato de emergirem de um jogo para outro, de maneira a possibilitar adaptações positivas de aprendizagem de jogo para jogo.
Os Jogos Desportivos Coletivos podem, sob essa perspectiva, serem considerados como uma “família de jogos”, devido à presença de princípios em comum, que podem ser transferidos de uma modalidade para outra.
Essa característica de transferência de aprendizado, Bayer (1992) chama de transfert. Segundo o autor, essa transferência está associada principalmente aos fatores organizacionais que são comuns à maioria dos Jogos Desportivos Coletivos.
Esses fatores são denominados por Bayer (1992) de “Princípios Operacionais do Jogo”, que podem ser descritos por seis princípios que estão presentes à todas as modalidades desportivas coletivas com característica de invasão de campo, sendo esses princípios:
Ofensivos
Manutenção da Posse de Bola;
Progressão da Bola e da Equipe ao Campo Adversário;
Finalização ao Alvo;
Defensivos
Recuperação da Posse de Bola;
Impedir a Progressão da Bola e da Equipe ao Próprio Campo;
Proteção do Alvo;
Ao observar esses princípios destacados por Bayer (1992) e pensá-los para qualquer modalidade coletiva, podemos perceber a existência de cada um deles nessas modalidades, podendo portanto, concluir que o futebol, basquete, râguebi, hóquei, o handebol (dentre outras modalidades) podem ser considerados de uma mesma “família de jogos” sob a ótica organizacional.
No caso do handebol e do handebol de areia, isso fica ainda mais claro, principalmente por fatores ainda mais semelhantes os aproximarem, que os caracterizam como um jogo de handebol. Se você tem dúvida disso, veja o vídeo abaixo que mostra um pouco do que é o handebol de areia:
[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=x3elnUlmYI4]
Vídeo 5. Um Pouco de Handebol de Areia
Pensando sobre a lógica da “família de jogos” o handebol de areia e o “handebol de quadra” acabam por ser modalidades que, além da transferência dos aspectos organizacionais (princípios do jogo) apresentam a característica de serem jogos de bolas com as mãos, com um alvo que é protegido por uma área exclusiva (área do goleiro).
Seguindo a idéia defendida por Scaglia (2003), ambos, como jogos de uma mesma família (poderíamos usar o termo “jogo de bolas com as mãos”), são capazes de possibilitar ajustes de aprendizagem (emergências) que beneficiem tanto um jogo quanto o outro.
Portanto, o aprendizado do handebol é capaz de regular positivamente o handebol de areia (como é o caso hoje, que muitos jogadores de handebol acabam migrando para o handebol de areia) e o aprendizado do handebol de areia é capaz de regular positivamente a aprendizagem do handebol de quadra.
Utilização Pedagógica da Lógica do Handebol de Areia para Aprendizagem do Handebol de Quadra:
Conforme destacado na introdução desse artigo, analisaremos como a mudança do número de jogadores, a redução do tamanho da quadra e a possibilidade do goleiro fazer gols que valham 2 pontos, podem ser transferidas positivamente no processo pedagógico do handebol.
A aplicação de um jogo com as seguintes regras: jogo com 3 jogadores de quadra e 1 goleiro, em espaço reduzido, dando ao goleiro a possibilidade de marcar gols valendo 2 pontos; cria a demanda de um jogo com particularidades pedagógicas muito interessantes.
1. A realização de pequenos jogos em ambientes de treinamento e pedagogia do esporte amplia as possibilidades dos jogadores em vivenciar com maior especificidade as ações que o jogo formal (em nosso caso handebol de quadra);
2. O jogo é jogado com um número menor de jogadores, mas que cria a oportunidade de resolver os problemas do jogo de maneira bastante análoga ao jogo de handebol de quadra, pois, uma situação mínima de 3×3 dá ao jogador em posse de bola, a oportunidade de, além de tomar atitudes táticas individuais, ter o apoio de mais de um jogador em sua equipe, tornando o jogo mais complexo do que, por exemplo, um jogo de 2×2, em que as opções de apoio tornam-se limitadas, diminuindo o grau de dificuldade do jogo e tornando-o menos imprevisível;
3. A diminuição do tamanho da quadra em detrimento de um menor número de jogadores possibilita que a “intensidade tática” para execução das ações mantenha-se alta, pois uma quadra grande com poucos jogadores diminuiria a carga para a resolução dos problemas, enquanto que a quadra diminuída mantém essa carga em altos níveis, aproximando-o ao do jogo formal;
4. Reforçar o fato de que o goleiro pode realizar gols que valem dois pontos cria a possibilidade de o goleiro arriscar-se a jogar como jogadores de quadra, algo que o goleiro que joga o handebol de quadra também pode realizar - fato muitas vezes esquecido pelos Professores de handebol.
Com jogos que estimulem essa participação dos “goleiros” do jogo em atuar na linha, além de vivência das ações específicas do goleiro, o jogador também realiza as ações gerais do jogador de handebol, que consistem na participação das ações ofensivas e defensivas do jogo.
Esse é um ponto importantíssimo a ser destacado nesse artigo que trás a utilização de jogos análogos ao handebol de areia nas aulas de handebol, pois é uma forma de estimular a participação de alunos/atletas no gol, mas sem que haja o esquecimento do ensino das ações de quadra e, portanto, fugindo do problema da especialização precoce desses jogadores.
5. Ao estimular do goleiro a atuar na quadra, cria-se uma situação de sobrecarga numérica de jogadores de ataque em relação aos jogadores de defesa (4×3), situação essa que facilita as ações ofensivas e dificulta as tomadas de decisão defensivas.

Figura 4. Estrutura do Jogo com a Atuação do Goleiro como Jogador de Quadra.
Dessa forma, é um estímulo aos jogadores de defesa procurar melhores opções defensivas (bom para a etapa de adaptação da marcação individual para a marcação em zona).
Do ponto de vista ofensivo, esses jogos mostram como a sobrecarga numérica é algo importante de ser buscada no ataque, criando a possibilidade dos alunos transferirem ações coletivas que potencializem a situação de sobrecarga numérica em outros jogos (como o próprio handebol formal) vivenciados no processo de ensino-aprendizagem.
Conclusões:
Tendo em vista um processo pedagógico do handebol de qualidade, deve-se potencializar a utilização de jogos que cujas “emergências” aprendidas sejam capazes de ser transferidas para outros jogos, e dentre eles o próprio handebol.
Conhecer o handebol de areia e analisá-lo como mais um jogo da “família de jogo de bolas com as mãos”, pode possibilitar a utilização de regras semelhantes para a criação de jogos que estimulem novas situações a ocorrerem naturalmente no percurso do jogo, possibilitando o exercício da criatividade e da solução de problemas semelhantes aos presentes no handebol de quadra.
Bibliografia:
BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.
SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]



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agosto 27th, 2008 at 21:18
ESTOU MUITO FELIZ QUE ESTOU VENDO ARTIGOS SOBRE O BEACH HANDBALL, E VC ESTA FAZENDO ISSO MUITO BEM, TEMOS QUE DIVULGAR ESTE ESPORTE QUE TEMOS HOJE AS MELHORES SELEÇÕES E ÁRBITROS DO MUNDO.
PARABÉNS PELA INICIATIVA, VAMOS BUSCAR MAIS REFERENCIAS, VALEU A TODOS QUE AMAM ESTE ESPORTE.
ABRAÇOS
SILVIO LAGO
ÁRBITRO IHF DE BEACH HANDBALL
agosto 28th, 2008 at 16:47
Olá Silvio, muito obrigado pelo comentário.
Considero o handebol de areia um esporte magnifico!
Abraços
setembro 8th, 2008 at 10:09
Nunca joguei na praia….só em quadra! E fiquei entusiasmado em saber sobre o jogo e pretendo fazer minha monografia relacionada a diferença de treinamento do handball de quadra para o de praia!!
Brigadão!
setembro 13th, 2008 at 15:29
Parabens pela iniciativa.
Sou formado em Educação Física.
E na minha monografia de graduação criei uma proposta de uma metodologia de aprendizagem do handebol de areia na escola, onde é dividida em cinco etapas.
Acretido que com o interesse de pessoas como vc poderemos divulgar cada vez essa modalidade fantastica e tambem manter o brasil entre os melhores durante muitos anos.
setembro 25th, 2008 at 15:34
Eu não gostei..pq quando eu joguei eu quebrei 2 unhas…e agora oq eu faço?
colo com super bondy…nO nO nO… vai demorar um ano para crescer!óóóó…
setembro 25th, 2008 at 18:02
PARABENS PELO ARTIGO, QUE É DE UMA LINGUAGEM FACIL E OBJETIVA, ESPERO QUE COM ESSA INICIATIVA O HANDEBOL DE AREIA SEJA MAIS DIVULGADO, SÓ UM DETALHE O “GOL DE CAMBALHOTA”, FOI RETIRADO DO JOGO. ESPERO QUE TENHAMOS UM CONTATO MAIOR APÓS ESSE COMENTARIO. UM FORTE ABRAÇO E PARABENS PELA INICIATIVA.
XYKO (TECNICO DE HANDEBOL DE AREIA)
JOÃO PESSOA -PB